Cinecoronariografia no Brasil: Os Primórdios Históricos no Brasil

Primeira coronariografia realizada no Brasil, em 1966,

Primeira coronariografia realizada no Brasil, em 1966,

A coronariografia no Brasil teve início em novembro de 1966 e foi realizada, pela primeira vez, no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, em uma paciente portadora de valvopatia mitral, utilizando-se a técnica de Sones (figura). A introdução desta técnica foi a culminância da oportunidade que nos foi oferecida de realizar o aprimoramento na especialidade, no laboratório de cateterismo cardíaco da Cleveland Clinic Foundation (Cleveland – Ohio – EUA), liderado então por F. Mason Sones Jr. Esta atividade teve o fomento da CAPES, que nos possibilitou – por solicitação do Dr. Dante Pazzanese, Diretor Geral da Instituição que hoje leva o seu nome – o aprendizado e o treinamento necessários.

O novo método diagnóstico, que fôra introduzido mundialmente naquela Instituição americana já de grande renome em 1958, constituiu-se na nova fronteira para a detecção e o conhecimento da doença arterial coronária (DAC). A visibilização dos diferentes padrões de acometimento aterosclerótico da DAC nos seres humanos possibilitou então passos gigantes na terapêutica de revascularização miocárdica, com a introdução de novas técnicas cirúrgicas como: o enxerto aorto-coronário, praticado pela primeira vez por René Favaloro, em 1968 e a angioplastia coronária com o balão, introduzida por Andréas Gruentzig, em 1977.

A experiência inicial de Sones, ainda que iniciada em 1958, foi publicada em 19621, reunindo um número fantástico, para a época, de mil casos, todos realizados no laboratório do autor. Este conjunto de salas de cateterismo cardíaco tornou famoso na própria Cleveland Clinic, com a denominação de “B-10”, caracterizando o local da sua instalação (basement, salas 10). Este laboratório compunha-se de três salas Phillips®, que realizavam cerca de 12 cinecoronariografias diárias. Quando lá chegamos, em 1966, os maiores laboratórios de cateterismo cardíaco nos Estados Unidos praticavam apenas 2 a 4 exames por dia. Este aspecto quantitativo já chamava a atenção para o gigantismo da Cleveland Clinic, que além de Sones, contava com a atuação de Shirey, Sheldom, Ferguson e Razavi. Estes cinco pioneiros realizavam excepcional trabalho de ensino da técnica, assim como de pesquisa clínica e básica nessa área do conhecimento.

No ano de 1966, quando foi introduzida no Brasil, esta técnica era realizada em apenas 3 ou 4 centros americanos e na Europa o método não era ainda utilizado. Assim sendo, a realização precoce da cinecoronariografia em nosso meio, colocou-nos entre aqueles que constituíram a primeira geração dos que implantaram o método, oficialmente reconhecida em 1978, quando a Cleveland Clinic, comemorou, com um simpósio histórico, os 20 anos da cinecoronariografia no mundo. Nesta oportunidade, os pioneiros foram homenageados com a placa comemorativa em reconhecimento à sua contribuição.

A experiência do Dante Pazzanese foi apresentada pela primeira vez no país durante o Congresso Brasileiro de Cardiologia, realizado em São Paulo, em julho de 1967, congregando os cem primeiros casos. A primeira referência bibliográfica brasileira nesta área ocorreu nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, em 19682.

Do Dante Pazzanese, esta técnica irradiou-se praticamente para todas as capitais brasileiras, nos dez anos seguintes, constituindo-se, também no Brasil, como método-padrão para o diagnóstico e para a avaliação de tratamentos desta afecção coronária.

As indicações do método ampliaram-se enormemente, sendo documentadas as recomendações em três trabalhos brasileiros sucessivos, constituindo marcos históricos, de autoria de Sousa3, Décourt4 e Carvalho de Azevedo5.

Esta atividade diagnóstica intensa desenvolvida em nosso país foi, também, o alicerce para a importante contribuição nacional na área das intervenções coronárias percutâneas, que mais uma vez destacaram o Brasil e o nosso Serviço no Dante Pazzanese como pioneiros no implante do primeiro stent de Palmaz-Schatz®6 e no do stent com sirolimus em seres humanos7.

Ao longo de quase quatro décadas, os aprimoramentos técnicos e tecnológicos não foram poucos. Atualmente, com cateteres de baixo perfil; meios de contraste muito aperfeiçoados e sistemas altamente desenvolvidos de mapeamento cardíaco o exame é praticado com alto nível de segurança, oferecendo uma enorme gama de informações qualitativas e quantitativas e possibilitando alta precoce. Essas evoluções justificam e garantem ainda ao método sua posição de alta hierarquia no armamentarium diagnóstico da DAC.

J. Eduardo M.R. Sousa

Referências Bibliográficas:

1. Sones Jr., F.M. & Shirey, E.K. Cinecoronary arteriography. Mod Concepts Cardiovasc Dis, 31:735, 1962.
2. Sousa JEMR, Medina LFJ & Fontes VF. Cinecoronariografia seletiva. Arq Bras Cardiol 1968;21:25.
3. Sousa JEMR. Cinecoronariografia 1979: Método diagnóstico de rotina? Arq Bras Cardiol 1979;33:323.
4. Décourt LV. Estudo crítico da cinecoronariografia. In: Simpósio Internacional sobre Aterosclerose Coronária 3º. J. Eduardo MR Sousa & Adib D Jatene. São Paulo, 1977, p. 53.
5. Azevedo ACE. Critérios para seleção de pacientes para coronariografia. In: Simpósio Nacional de Aterosclerose Coronária. J. Eduardo MR Sousa. 1ª Edição, São Paulo, 1973, p. 57.
6. Sousa JE. First Palmaz-Chatz stent implanted in humans: 13-year angiography and intravascular ultrasound follow-up. In: Rothman, MT. Case Studies in Interventional Cardiology, 2004, p. 291-294.
7. Sousa JE, Costa MA, Sousa AGMR, Abizaid AC, Seixas AC, Abizaid AS, Feres F, Mattos LA, Falotico R, Jaeger J, Popma JJ, Serruys PW. Two-year angiographic and intravascular ultrasound follow-up after implantation of sirolimus-eluting stents in human coronary arteries. Circulation 2003;107:381-3.