Tratamento do óstio da descendente anterior em paciente com angina pós-IAM pela via radial
Autor(es): Anibal Abelin, André Mânica, Eduardo Mattos, Rogério Sarmento Leite
Instituição: Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul/Fundação Universitária de Cardiologia – Porto Alegre, RS, Brasil
Paciente masculino, 79 anos, com antecedente de HAS e sem história de prévia de DAC, internado na cidade de origem com IAM sem elevação do segmento ST, sendo transferido para cateterismo cardíaco de urgência devido a quadro de angina pós-IAM. Apresentava angina em repouso de severa intensidade imediatamente antes do início do procedimento.
Exame realizado via radial direita com introdutor valvulado 6F e administração de Heparina 5000 UI IV:
- TCE com estenose distal leve (<30%)
- ADA com estenose subtotal no óstio e redução do fluxo anterógrado (TIMI 1), com colaterais do sistema coronariano direito grau 2 (Rentrop).
- ACX com irregularidades discretas de calibre
- ACD com estenose severa proximal (70%)
- Ramo descendente posterior com estenose severa (90%) medial.
- Ventriculografia mostrando VE com volume normal, hipocinesia anterior e apical, FE 60%
- Manometria mostrando ausência de gradiente VE-Ao
Paciente evoluiu com persistência dos sintomas durante e após o procedimento, sendo decidido por tratamento “ad-hoc” da ADA. Administrado antes do início da ICP: AAS 300mg, Clopidogrel 600mg, complementação da dose de Heparina até 70 U/Kg e Tirofiban 10 mcg/kg bolus, seguido de infusão de 0,15mcg/kg/min (paciente sem uso prévio de clopidogrel). Trocado introdutor valvulado por um sistema 7F, pela mesma via radial, e cateterizada a coronária esquerda com cateter terapêutico JL 3.5, 7F. Ultrapassada a lesão da ADA com guia 0,014 BMW e colocada outra guia 0,014 BMW na ACX para proteção. Pré-dilatação da ADA com balão 2.0 x 15 mm com 10 ATMs por 30 segundos. (Figuras 8 e 9) A seguir, foi implantado stent Pro-Kinetic 3.0 x 18 mm com 16 ATMs por 30 segundos do TCE em direção a artéria descendente anterior. (Figuras 10 a 12) Colocada terceira guia 0,014 através da malha do stent em direção a ACX e retirada posteriormente guia BMW que estava enjaulada. Realizado pós-dilatação com técnica Kissing-Balloon (balões 2.5 x 15 mm na ADA e 2 x 10 mm na artéria circunflexa). (Figura 13) No controle com IVUS observou-se estenose grave ostial da ACX (área = 2,6 mm², Figura 14) e má-aposição do stent da ADA. (Figura 15) Realizado nova pós-dilatação da ACX com balão NC Quantum 3 x 15 mm com 20 ATM’S, e do TCE/ADA com balão NC Quantum 4 x 12 mm com 20 ATM’S. (Figuras 16 e 17) O IVUS de controle demonstrou recuperação da luz do óstio da ACX (área > 4.0 mm²) e aposição adequada do stent da ADA, com lesão residual na ADA distalmente. À angiografia de controle, observou-se recuperação da luz do vaso, sem dissecção e com fluxo normal (TIMI 3). (Figuras 18 e 19)
Realizado uma semana depois intervenção percutânea na coronária direita, pela mesma via radial, com sucesso.
Paciente recebeu alta em bom estado geral, deambulando, assintomático e sem complicações no sítio de acesso, estando em acompanhamento ambulatorial no nosso hospital, sem eventos cardiovasculares no seguimento de 30 dias.
Comentários: O caso relatado apresenta alguns dos dilemas da rotina da cardiologia intervencionista brasileira na atualidade, como via de acesso, decisão terapêutica nas síndromes coronarianas agudas, técnica a ser empregada e limitações referentes ao material disponível para realização do procedimento. A via radial está associada a menor risco de complicações hemorrágicas e do sítio de acesso, assim como mortalidade em determinados cenários clínicos. O paciente comportou confortavelmente a troca da bainha radial 6F por um sistema femoral 7F utilizando a guia 0,035. Fica evidente no caso apresentado que não somente a via de acesso radial pode como deve ser utilizada sempre que possível, já que a mesma possibilita a utilização de cateteres 7F caso seja necessário o tratamento de lesões no tronco da coronária esquerda ou em bifurcações. Em relação ao tratamento a ser empregado, a presença de angina persistente e suboclusão da coronária influenciaram na decisão de tratamento percutâneo imediato, apesar da indisponibilidade de stents eluídos. Devido a ausência de estenose significativa no óstio da coronária circunflexa, foi optado pela técnica de stent provisional, tendo sido indispensável o uso de IVUS para adequada avaliação do óstio da circunflexa e da aposição do stent.
































Por RAIMUNDO FURTADO em 3 de fevereiro de 2012 às 23:52
EXCELENTE CASO MOSTRANDO QUE A VIA RADIAL PODE SER UTILIZADA DE ROTINA EM CASOS COMPLEXOS DE SINDROME CORONARIA AGUDA, POSSIBILITANDO INCLUSIVE A UTILIZAÇÃO DE CATETERES DE MAIOR CALIBRE PARA O TRATAMENTO DE LESÕES COMPLEXAS COMO NESTE CASO APRESENTADO. O MAIOR BENEFICIADO É SEM SOMBRA DE DUVIDAS O PACIENTE QUE SE VÊ LIVRE DE COMPLICAÇÕES MAIORES AO UTILIZAR A VIA RADIAL E AO MESMO TEMPO UTILIZAR SIMULTANEAMENTE UM DROGA ANTICOAGULANTE E TRES ANTIAGREGANTES PLAQUETARIOS, COM SEGURANÇA SEM RISCO MAIOR DE COMPLICAÇÕES HEMORRAGIACAS. PARABENS AOS AUTORES PELO SUCESSO DO CASO APRESENTADO E PELO SUCESSO DO PROCEDIMENTO REALIZADO.
RAIMUNDO FURTADO
SÃO LUIS – MARANHÃO
Por DIMITRI MIKAELIS ZAPPI em 4 de fevereiro de 2012 às 1:44
Caro Rogerio e demais colegas, como “radialista” desde os tempos da residencia e sendo hoje em minha rotina diaria pratica de extrema excecao o uso de outra via de acesso que nao radial/ulnar, gostaria de parabeniza-los pelo caso, pois uma vez mais reforca sua factibilidade visto da complexidade anatomica enfrentada. Acrescentaria algumas reflexoes e que usamos para realizar nossos casos diariamente que podem reforcar o potencial da via radial. Mesmo que a arteria do paciente nao comportasse 7F, poderia ter se realizado a intervencao com 6F visto que tecnica de bifurcacao adotada foi apenas kissing-balloon e mesmo que o resultado nao fosse otimo e se necessitasse de outro stent, temos resolvido nossos casos com a tecnica de step crush reverso com material 6F sem muita restricao. Ainda gostaria tambem de parabeniza-los pela personalidade da opcao de stent convencional apesar da intervencao no TCE, neste perfil clinico de paciente, haja visto baixo risco de reestenose ja que nao e diabetico e o stent foi pos-dilatado com balao 4 mm e alto risco de trombose da nao adesao a terapia antiplaquetaria, se houvesse sido utilizado SF.
Por Anibal Abelin em 4 de fevereiro de 2012 às 3:33
Caro Dr. Raimundo, agradeço em nome da equipe os comentários, que tanto nos honram, advindos de um pioneiro como o Sr.
Em nosso serviço utilizamos com uma frequência cada vez maior a via radial, e após os últimos estudos (RIVAL e RIFLE STEACS), a mesma vem sendo utilizada praticamente como rotina em casos de maior gravidade, como IAM.
Cordialmente
Anibal Abelin