Tempo porta-balão na ICP primária via radial

Título do artigo original: Arterial Access and Door-to-Balloon Times for Primary Percutaneous Coronary Intervention in Patients Presenting with Acute ST-Elevation Myocardial Infarction

Referência: Catheterization and Cardiovascular Interventions 75:695–699 (2010)

Autor do artigo original: Aaron N. Weaver

Co-autores: 1* MD, Rick A. Henderson,2 MD, MS, Ian C. Gilchrist,1 MD, and Steven M. Ettinger,1 MD

Fundamentos: Sabemos que a sobrevida após um IAM com supra ST (IAMCSST) depende do tempo para se alcançar a reperfusão (tempo dor-balão), o que muitas vezes se prolonga por um maior tempo porta-balão. Em pacientes submetidos à ICP primária os efeitos da abordagem transradial, comparada à transfemoral, no tempo porta-balão ainda não foi demonstrado. Este estudo compara a via transradial com a transfemoral em relação ao tempo para o inicio de uma ICP primária na vigência de IAMCSST.

Métodos e Resultados: Pacientes consecutivos, provenientes de um centro terciário com diagnóstico de IAMCSST na admissão foram incluidos nesta análise. Os parâmetros avaliados foram: tempo porta-ECG, ECG – avaliação médica, avaliação médica – chegada ao laboratório de hemodinâmica, laboratório de hemodinâmica – via de acesso pronta para início do procedimento, acesso arterial – insuflação do balão. Em um total de 240 pacientes(p), 205 foram submetidos à ICP com sucesso (n = 124 radial; n =116 femoral). A escolha da via de acesso ficou à critério do hemodinamicista. O acesso radial foi alcançado ao utilizar kits apropriados para a via, sendo administrado como rotina 250mcg de Nicardipina como antiespasmódico padrão.

Não houve diferença significativa em relação ao tempo antes da chegada ao laboratório de hemodinâmica. O tempo para o inicio do procedimento foi um pouco maior no grupo radial (12.5 ± 5.4 min x 10.5 ± 5.7 min, P < 0.005) relacionado ao preparo do paciente. No entanto, após a via de acesso ser obtida, a insuflação do balão ocorreu de forma mais precoce no grupo radial(18.3 x 24.1 min; P < 0.001). O tempo total entre a chegada do paciente ao laboratório de hemodinâmica e a angioplastia foi reduzido no grupo radial, em comparação ao femoral (28.4 x 32.7 min, P < 0.01). Houve uma pequena, mas significativa, diferença nos tempos porta-balão( 76.4 min no grupo radial x 86.5 min no grupo femoral, P < 0.008).

Conclusões: Pacientes que se apresentam com IAMCSST podem ser submetidos à ICP primária pela via radial com sucesso sem comprometer o tempo porta-balão.

Ponto de Vista: Estudo interessante que demonstra a factibilidade da via radial na vigência do IAMCSST. É do conhecimento de todos que a via radial apresenta muitas vantagens em relação à via femoral, como uma menor incidência de complicações hemorrágicas, associado a um menor risco de sangramento, maior conforto ao paciente, menor tempo de hospitalização e de repouso e, em pacientes com maoior risco de sangramento, poderiam até mesmo reduzir mortalidade. No entanto, sua utilidade no contexto das SCA com supra ainda é tema controverso. Detalhes do estudo descrito anteriormente merecem ser ressaltados. Trata-se de estudo unicêntrico, não randomizado, sendo que a escolha da via ficava à critério do hemodinamicista, gerando um viés de seleção. Dados importantes como a extensão e a parede relacionada ao IAM, a apresentação clinica dos pacientes na admissão (Killip) bem como as características clínicas das lesões não foram relatados. Pacientes mais graves, instáveis, muitas vezes aprsentam lesões mais complexas (calcificadas, tortuosas, bifurcações), sendo muitas vezes necessário o uso de dispositivos com maior perfil, incompatíveis com a via radial.

Por outro lado, a taxa de “crossover” da via radial para femoral foi baixa, em torno de 4,8%, ou seja, em cerca de 95% dos p a escolha da via radial não comprometeu o sucesso do procedimento. Ainda, não houve diferença entre os grupos em relação ao insucesso do procedimento pela não progressão do guia 0,014(2 p no grupo radial e 3p no femoral) demonstrando a factibilidade da via. Em relação às complicações, estas foram menores no grupo radial, principalmente relacionadas com uma menor incidência de sangramento tornando a utilização da via radial, sempre que possível, e em qualquer cenário clínico, de grande benefício para o paciente.